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Como tem que ser

Eu aprendi a gostar de crônicas por causa da Martha Medeiros. Eu lembro da data e lembro do livro e lembro da crônica. 
Era 2001, eu tinha 15 anos. "Trem-bala". Para mim, até hoje, o melhor dela.
Bom, no decorrer desses 15 anos, foram muitas as tentativas de tentar deixar um blog na ativa, de escrever crônicas, de ter coragem de publicá-las, de mostrá-las, foram muitas leituras, muitos amores (matérias-primas de crônicas), muitas viagens, muito tudo.
Até que nesta semana, uma amiga da família postou no meu Face um trecho de uma crônica da Martha que diz assim:
"Se gamar, invista. Se sofrer, azar. Se der frio na barriga, celebre. Se vacilar, tente de novo. Se parecer longe, vá igual. Se nunca fez, arrisque. Se der medo, vença-o. Se não souber, invente. Se falhar, ria. Se encheu, viaje. Se fizer calor, praia. Se calhar, Londres."
Bem, aconteceu o tal do breakthrough comigo. O clique.
Na verdade, este ano é o ano dos acertos para mim.A década muda e eu preciso me livrar do excesso de bagagem e decidir para qual caminho seguir. E eu decidi: Londres.
Flavinha, a amiga da família, sabendo disto, publicou o trecho na minha timeline. Não poderia ter sido em melhor hora.
Estou atrás de emprego, de dupla cidadania, de sonhos, de acertos comigo mesma, de recuperação da pós-viagem de Londres (estou morrendo de saudades e querendo pegar o primeiro avião para lá de novo a cada segundo)...
Tudo está acontecendo. E se tudo está acontecendo, eu preciso fazer um blog vingar. É uma questão de honra.
A crônica perfeita da Martha você encontra aqui. Mas, para todos os efeitos, vou deixá-la registrada juntinho ao meu texto, para não perdê-la nunca :)

Recebi um e-mail da prefeitura avisando que de agora até abril de 2016 haverá a construção de uma superciclovia cortando toda a área central da cidade. Eles dizem que durante a primeira fase dos trabalhos serei avisada sobre quais ruas devo evitar nas horas de pico e também serei comunicada quando houver algum desvio. Disseram também que o transporte público não será afetado, mas poderá eventualmente acontecer algum atraso nos horários previstos de chegada dos ônibus nas estações. Por fim, divulgaram um site onde encontro uma animação em 3D reproduzindo todo o trajeto da ciclovia, incluindo os cruzamentos e a sinalização, assim como as datas de início e conclusão de cada trecho e horários de atendimento por telefone para esclarecimento de dúvidas.O e-mail é da prefeitura de Londres. Cerca de dois anos atrás, passei um mês estudando lá e comprei um Oyster Card, que é um cartão para transitar por transporte público por toda a cidade. Fiquei cadastrada no mailing deles e desde então recebo periodicamente as informações sobre o trânsito da capital inglesa. Sei quais linhas de metrô e ônibus sofrerão atraso, quais serão as alterações de rota nos feriados e nos períodos de obras, recebo pedido de desculpas pelos transtornos e agradecimento pela minha cooperação.
A cada vez que recebo um comunicado desses, lembro como é ser tratada como cidadã. E penso: é assim que tinha que ser. Tudo. Tudo na vida. Não sou inimiga da flexibilidade, há modos diversos de se administrar uma cidade, um relacionamento, um trabalho, porém muitos problemas seriam eliminados se optássemos pela maneira consagrada, a que sempre funcionou: transparência e assertividade.
Como é que tem que ser? Se te perguntam, responda. Se te emprestam, devolva. Sem dinheiro, não compre. Se te dão, agradeça. Se te confiaram, cuide. Se te agridem, afaste-se. Se te pagaram, entregue. Se cansou, pare. Se te confidenciaram, silencie. Se te roubaram, acuse. Se colocou no mundo, crie. Se contratou, pague. Se gostou, fique. Se não gostou, recuse. Se errou, desculpe-se. Se acertou, repita. Se tem que fazer, faça. Se prometeu, cumpra. Se vai atrasar, avise. Se te necessitam, ajude. Se você precisa, peça.
É feito um relógio. Tic-tac, no ritmo da eficiência. Porém, as pessoas fogem desse esquema porque acreditam que ficarão engessadas, que serão chamadas de caretas ou que terão uma existência simplista. Que bobagem. Elas apenas adiantarão seu lado a fim de ganhar tempo para se dedicarem à deliciosa anarquia da vida, aquela que, aí sim, nunca teve tic-tac. Se gamar, invista. Se sofrer, azar. Se der frio na barriga, celebre. Se vacilar, tente de novo. Se parecer longe, vá igual. Se nunca fez, arrisque. Se der medo, vença-o. Se não souber, invente. Se falhar, ria. Se encheu, viaje. Se fizer calor, praia. Se calhar, Londres.
 Tudo isto para dizer que a Martha, 15 anos depois, veio a calhar. Junto com Londres. Algumas coisas fazem sentido, outras nem tanto, mas não importa. Esta é a minha vida e preciso vivê-la da melhor forma possível.
Tentando fazer o possível. E torcendo para que o impossível aconteça.

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